• Marina Camargo

Discografia Básica - "Sanfonemas" de Toninho Ferragutti


Eu sou do tempo do disco, não necessariamente do disco de vinil, que também era ótimo e tinha toda uma magia, um ritual: tirar da capa, colocar na agulha, subir o som e ficar lendo as letras, folheando o encarte...Depois veio o CD que ainda manteve o encarte, a capa, mesmo que em tamanho menor. Gosto de colocar o disco/CD abrir o encarte e ler o nome dos músicos, principalmente quando escuto um acordeom e logo quero saber, quem é?

Claro que os streamings facilitaram muito a nossa vida. Agora temos uma loja de discos na palma da mão! Mas perdemos muito em informação. Quando ouço uma música quero saber quem é o autor, quem são os músicos, quem é o arranjador. Muitas vezes não temos essa informação online.

Pensando nisso resolvi iniciar uma série aqui no blog onde vou falar de discos que considero essenciais. Vou começar com acordeonistas, claro!, mas também quero falar de álbuns importantes da música brasileira.

O primeiro álbum que escolhi pra essa série é o "Sanfonemas" do acordeonista Toninho Ferragutti. Esse é o seu segundo álbum autoral, o primeiro gravado no Brasil pelo selo Pau Brasil. Em 1996 Toninho já tinha gravado no Japão, junto com o saxofonista Roberto Sion, o álbum "Oferenda".

Gravado em 1998 o álbum tem produção do baixista Rodolfo Stroeter, direção musical e arranjos do próprio Toninho. São 14 faixas, 11 autorais e três regravações escolhidas "a dedo": "Merceditas" de Ramon Sixto Rios com participação da cantora Marlui Miranda, "Alfonsina y el Mar" de Ariel Ramirez e Félix Luna e "Ivair" de Pedro Ferragutti, seu pai, que era saxonfonista e compositor.

Entre as faixas autorais estão composições que permanecem até hoje como clássicos do repertório de Toninho como: "Sanfonema", "Sanfoneon", "E o Bento Levou" e "Dominguinhos no Parque", com participação do próprio homenageado.

Entre os músicos que participam do disco encontramos grandes nomes da música instrumental brasileira como o saxofonista Vinícius Dorin, o pandeirista Guello, o clarinetista Proveta, o baixista Rodolfo Stroeter e o acordeonista Dominguinhos.

O disco traz composições que passeiam pelos ritmos brasileiros como o forró, o choro, o chamamé, mas também baladas e valsas como as belíssimas "Meia Saudade" e "Sanfonema".

Esse disco chegou nas minhas mãos quando fiz minha primeira Oficina de Música de Curitiba com o Toninho, lá em 2003.

Pra mim foi uma grande surpresa descobrir tudo o que o acordeom podia fazer. As composições desse disco me fizeram perceber novas possibilidades no instrumento que eu nem fazia ideia que existiam. Novos caminhos harmônicos, melodias dissonantes e intervalos pouco usuais até então no acordeom. Pedi ao Toninho partituras das músicas do disco e ele nos entregou manuscritos feitos por ele mesmo, músicas que estão no meu repertório até hoje.

"E o Bento Levou", "Dominguinhos no Parque", "Sanfoneon" e "Helicóptero" foram as que eu mais estudei na época. "Sanfonema" gravei em 2018 no álbum que acompanha o livro "Acordeom Brasileiro". "Chapeú Palheta", "O Mancebo" e "Olímpico", dois choros e um chamamé são as que ainda quero tocar :)

Pra mim, esse álbum é um divisor de águas na música brasileira feita com acordeom. Obrigatória a audição para todo estudante e amante desse instrumento.

"Do céu do Brasil, de seu lado de dentro, o interior, soprou uma nuvem hidromineral. Muito branca, veio com a cara do Hermeto e um leve sotaque italiano guardado no fole. Choveu dali a sanfona de Toninho.

Ela veio entrar pelo poros da terra, rasgar a cena portenha como um grande rio desaguado dos pampas e cruzar, desavisada, um caudaloso sertão na minha sala. Ainda está por lá essa alumiada.

Por certo entrou pela paisagem distante um quadro e me espera ali, marcando o fôlego. É eu me acostumar com a surpresa e lá vem ela, a me encantar de novo. Alumbramento de música" (Marcílio Godoi, no texto do encarte do disco).

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